23.4.11

Complexidade e Contradição em Kieran Hebden, a.k.a. Four Tet

Four Tet curte minimalismo. Four Tet curte jazz. Four Tet curte hip-hop. Four Tet curte funk. Four Tet faz música eletrônica e nada que se pareça com os gêneros citados. A síntese que acontece na cabeça de Kieran Hebden (o Four Tet) é muito interessante. Tenho ouvido seus discos nas últimas duas semanas e o que me parece é que, no ano de 2008, quando lançou o EP Ringer, ele finalmente parou para pensar no que tinha feito em quase uma década de música, e percebeu que faltou o principal: a música eletrônica. O que nós conseguimos identificar como música eletrônica normalmente, não é facilmente identificável no trabalho de Kieran Hebden. Até Ringer, sua música era chamada "eletrônica" mais pelo fato de ele usar loops, samples e uma manipulação "fragmentada" do som (mais própria da música dita "eletrônica") do que na própria estética de sua música, ele não (ou pouco) usava synths ou baterias eletrônicas, nem endorsava o estilo "vou-para-balada-tomar-ecstasy", ele curtia mais um "vou-tomar-ecstasy-em-casa-mesmo". A repetição está lá, o aparecimento progressivo de temas e um certo desenvolvimento deles também. Mas também está na música minimalista, que é mais identificável no som inicial do Four Tet. Sua música (até Ringer) sempre esteve ligada ao jazz, a existência de uma bateria livre, provavelmente sampleada (impossível 100% de certeza, já que Kieran modifica as frases magistralmente a cada compasso, como se estivesse improvisando bateria com uma mesa de som) e a liberdade dos temas eram o que nos fazia lembrar do gênero, mas sabendo ao mesmo tempo se tratar de um território diferente, meio contraditório. A bateria e o riff grave de A Joy pede mais um solo descontrolado de saxofone ou um sintetizador com fuzz do que a guitarra limpa dedilhada, que, de outra maneira, seria a música tema de Cidade dos Anjos cantada pelo Goo Goo Dolls. Da mesma forma, She Moves She é de uma dialética imbatível. Começa com um groove funkeado, nos animamos, entra um tema apoiado por um glockenspiel e algum instrumento de cordas abafado, que podia ter sido gravado no final de um épico esquecido de 23 minutos do Mike Oldfield, como apoteose da canção, só que totalmente deslocado e nem um pouco majestoso aqui, nos frustramos, mas começamos a entender o que Kieran quis dizer, só que, quando nos habituamos à atmosfera, entra um sintetizador (?) ou falha sonora de estúdio sampleada (???), feedback manipulado feito sample (????), que nos leva a algum lugar que não sabemos se podemos voltar. Estamos completamente no mundo árduo e dialético de Four Tet. Mas inabandonável depois que a gente se acostuma. Quer dizer, até certo ponto. Eu estava no EP Ringer, mas em There is Love in You, seu mais recente trabalho, a coisa fica um pouco mais complicada. Ter o conhecimento da dialética de Kieran antes de ouvir esse disco é importante. Mas nele há um fator pouco explorado antes por Four Tet. O tédio. Love Cry é praticamente um ensaio sobre o tédio. Ou pelo menos o que é o tédio na música. Quase nenhuma mudança acontece depois que a contraditória bateria entra por cima do teclado que sofre para não morrer, bateria pulsante, quase uma paródia do batidão sem sentido dos djs espalhados pelo mundo. A informação dessa música está na repetição do tema até a morte, como para sublinhar e dizer: "você entendeu mesmo?", "isso é assim". Quando a música cresce e aparece um synth grave liderando um clímax é decepcionante, nada acontece. Entra um sample vocal e mais uma vez você é testado. Sensacional. Circling até no nome nos faz lembrar do minimalismo de Steve Reich, a paródia de si mesmo do começo é sensacional, o tema é feito no violão, remetendo ao som de outras épocas, como eu Pause (álbum de 2001). Outra paródia ao que me parece aparece em Sing, a tipo-hit do álbum. Esta canção está entre uma das melhores que ouvi em 2010. Ela começa dizendo: "essa é a minha origem, daqui de onde eu vim". Realmente é uma homenagem maravilhosa, digna de Monte Pitão dizendo que George Harrison come merda mas homenageando ele por ser uma piada carinhosa. Sing é uma música que deve ter terminado com umas 24 trilhas em sua mixagem só que para quem ouve, parece ser um repertório bem menor de loops. Reconhecê-los e organizá-los mentalmente é importantíssimo para se poder entender o que eles querem dizer, a lógica que têm quando misturados, o groove funkeado do final faz essa parecer outra música e depois a volta do tema inicial nos faz lembrar que aquilo tudo foi um exercício de sintaxe musical de quase 7 minutos. Parece pouco para os floydheads, mas passar por esses 7 minutos com a atenção totalmente voltada para os sons que surgem te cansa mais do que ouvir o Animals com atenção redobrada. Talvez um fator que afaste o público desse tipo de música eletrônica, seja que a mixagem é realmente um instrumento a mais e que deve ser interpretada como um instrumento e isso é algo muito distante da realidade até porque poucas bandas tratam a mixagem como tal. Em A Joy, temos uma suspensão (literalmente, um mute) do som da bateria de por volta de um segundo, que nos deixa sem chão, no meio de um pulo, sem ar, para voltar à todo vapor no segundo seguinte. Tal uso da mixagem, para hoje, tem o mesmo significado que um acorde suspenso tinha para a música de ontem (um acorde com quarta, ou com sexta, ou mesmo com sétima, que pede outro, que não parece conclusivo). O modo como a mixagem é usada nos ajuda a ver a bateria em evidência, ou um synth, ou um baixo, ou qualquer outra coisas, "falhas" sonoras, ruídos, "cortes" propositais na repetição de um loop, esses artifícios de produção musical foram tão usados que acabaram criando um vocabulário próprio, que chamam de IDM (ou Intelligent Dance Music), não vou discutir o nome pomposo, mas não é apropriado chamar um gênero musical assim, até porque nenhum gênero musical é inteligente ou burro, já que é válido se carregado de valor cultural. O funk carioca traz consigo uma elevada carga cultural, M. I. A. nos atesta isso. Então, para chegar ao fim desse longo parágrafo escrito às pressas, There is Love in You é uma espécie de ensaio sobre como se faz e se ouve música eletrônica no mundo, começar um disco com a estática Angel Echoes é algo que só um artista seguro de si e com muitos lançamentos nas costas (inclusive remix comissionada de gente do naipe do Radiohead) pode fazer, não que ela seja uma espantadora de fãs, mas porque é um pequeno choque para o "acostumado" ao som do Four Tet. Esse cara não existe.

Four Tet - There is Love in You (2010) ; nota: 9,0